Uma forma de Pedir

Quando os adeptos da religião Afro-brasileira fazem as suas oferendas aos Orixás, Inkice, Bakuro ou Encantado, eles agem como os religiosos de outras religiões ou cultos. Em todas as religiões, de formas diferentes, existe a cerimônia ou ritual das oferendas. Os católicos oferecem suas rezas aos santos de devoção, ascendem velas em intenção aos Santos, isto para não falar no “fenômeno da transubstanciação”, que é a transformação pela fé, do pão e do vinho, no corpo e sangue de Cristo, para a comunhão.

Num caso e no outro, os católicos buscam a purificação ou a obtenção de benefícios ou alívio da sua angústia. É comum, em várias religiões, a oferenda de frutas aos deuses, para conquistar sucesso em empreitadas ou em negócios. Os exorcistas fazem uma mentalização, procurando materializar o que buscam. Acreditam que, com isso, movimentam as forças da natureza e que serão atendidos em seus objetivos. As oferendas fazem parte da vida de todos nós.

Os africanos da Tradição dos Orixás e os afro-brasileiros de um modo geral, lançam mão dos conhecimentos que possuem , para movimentar as forças da natureza, em favor de si mesmo, ou em favor de terceiros. Talvez sejam os afro-brasileiros os que mais usam as oferendas em forma de pedidos e de homenagem ou agradecimentos aos Orixás , Vodun, Inkice, Bakuro ou ancestrais- tudo isso pelo axé ou favorecimento obtidos. Antigamente, como hoje ainda, as oferendas eram colocadas em encruzilhadas que representam os quatro pontos cardeais. Nas encruzilhadas, como em qualquer outro lugar, a ofernda exige a convocação do agente dinamizador de todas as relações e da natureza que é Exú que mais uma vez, repetimos, não tem nada a ver com o “capeta”, ou o “diabo” ou qualquer ser mítico “representante do mal”.

A invocação de Exú é necessária porque ele, é o transportador de tudo, das homenagens ou dos pedidos. Cabe a Exú a comunicação de tudo, de todas as oferendas. Como o decorrer do tempo, as associações umbandistas ou candomblecistas passaram a orientar seus associados e os adeptos à Tradição religiosa afro-brasileira, para lugares mais distantes- matos ou campos desertos- visando preservar a pureza da oferenda- para que o religioso obtenha o máximo com o que oferta e não incomode ninguém. É sábio que cada orixá ou Vodun ou Bakuro, ou Inkice representa e é patrono de uma força cósmica, força sagrada da natureza.

Assim como vimos acima Exú é patrono das forças que dinamizam todas as relações, patrono da comunicação. Por isso, quando nós ou alguém está com “suas coisas empatadas”, com “caminhos fechados”, é necessário buscar energia para desatar nós, amarras. Para tanto, por exemplo, podemos ofertar farofa amarela ou branca, para Exú (em Ketu ou nagô) Legbara (em jejê) ou Ungira (angola). O Orixá Ogum é patrono da força que faz avançar, que permite a descoberta de novos horizontes, que nos permite obter novas conquistas.

Ogum guerreiro, é na feliz definição de Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi-Alapini, companheiro do Conselho Religioso Nacional e Coordenador Geral do INTECAB, o príncipe da iniciação e da libertação. É em função disso que oferecemos, por exemplo, o cara barbudo o inhame assado buscando as energias necessárias junto a Ogum, para que se tenha força para avançar, romper caminhos ou enfrentar conflitos de toda espécie, íntimos ou não. Para cada necessidade de energização ou fortalecimento de cada um de nós, procuramos nos socorrer junto a um Orixá. É por isso que as pessoas com saúde enfraquecida, além de cuidados da medicina humana, invocam Ossanyn ou Katendê, patrono da natureza, das ervas e das folhas que representam a vida e a cura; ou invocam Obaluaiyê buscando as forças que curam e garantem a saúde.

Da mesma maneira invocamos, com oferendas o Orixá Xangô (ou Jambangurin-Bakuro do Lunda-Kioko ou Omoloko), quando precisamos de nos fortalecer diante de pendências políticas ou jurídicas ou quando precisamos de maior cobertura intelectual. É também com esse objetivo, fortalecimento individual ou superação de deficiências biológicas ou dificuldades psicológicas, que as mulheres, principalmente, fazem oferendas para Oxum, Yemanjá ou Nana Burukê que são os Orixás que representam o poder feminino de geração, proteção da mulher, da concepção, gestação, nascimento e crescimento sadio dos filhos. Quando oferecemos a canjica branca a Oxalá, estamos buscando, com o simbolismo da pureza do acaçá, a purificação máxima.

Todas essas oferendas são recebidas e manipuladas pelos Inkice, Bakuro, Vodun, Orixá ou Encantados que revertem, em nosso favor os efeitos positivos desejados, sempre que as nossas intenções forem sadias. O que não podemos nunca, nem aceitar jamais, é confundir oferendas com bruxarias. Aliás bruxarias só existem no coração e na cabeça dos doentes. Nós, religiosos da Tradição afro-brasileira temos, nas oferendas, um instrumento que permite a busca permanente do equilíbrio de nossas energias e de nossas relações, com Deus Olorun ou Nzambi, com nossos semelhantes e com a natureza.

Tateto Nepanji- Nelson Mateus Nogueira.

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One Response to Uma forma de Pedir

  1. Conceição Maria Torres Vitagliano disse:

    Com todo respeito,reverencio quem trata do assunto com conhecimento, sou uma simples pessoa passando por dificuldades e encontrei algumas das respostas que procurava e sr. Nelson mesmo atráves de uma máquina parece que seu amor e força é sentido através do seu olhar( vi a foto ao lado do barco de Iemanjá). Muita luz !( se não for abuso peça por e meus filhos).Obrigada

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